A Arte de Acolher


A Arte de Acolher

  

O que torna a chegada do parto um momento tão difícil? 

A aproximação da data prevista para o parto, como qualquer “deadline”, coloca os envolvidos contra a parede, acuados diante da “temível dor e sofrimento” gerados pelo trabalho de parto. Mas o que torna esse ritual de passagem tão temerário assim, a ponto de gerar sofrimento inclusive em quem o assiste? 

Somos seres extremamente flexíveis com capacidades de adaptações indescritíveis. Somos frutos de centenas de milhares de anos de modelagens às catástrofes planetárias e às mais diversas privações. Passamos por temperaturas extremas, secas, inundações, escassez alimentar, competições ferrenhas, guerras, pestes, violações de direitos, escravidão e torturas. E o que é mais incrível, a mecânica do parto em nada se alterou! Então, o que mudou no mundo para que o sofrimento gerado pelo parto persistisse? 

Mudaram-se as expectativas! 

É isso! Como consequência do crescente desenvolvimento tecnológico, deflagrado principalmente após a Idade Média, embalado pela Revolução Industrial e acelerado pelo advento da eletrônica e da tecnologia digital, houve uma drástica mudança no pensamento humano e o nosso distanciamento daquilo que é natural. Para compreendermos melhor o Todo (O cosmos, as partículas quânticas, a gravidade, o eletromagnetismo…) dividimos o Todo em partes, as partes em partes cada vez menores e geramos tanto conhecimento, tantas leis, tantas equações que passamos a nos sentir pequenos e fragmentados. Tanta informação e desenvolvimento permitiu o surgimento de inúmeros paradoxos e o pior, não nos garantiu a imortalidade nem solucionou nossos piores Medos. 

E os nossos Medos? 

Nossos medos são frutos da nossa ignorância e da nossa impotência diante daquilo sobre o qual não temos o domínio. Um instinto de sobrevivência que possivelmente requintou-se em torno de uma fogueira ou quem sabe dentro de uma caverna enquanto refugiávamos das feras, da escuridão, das intempéries do clima, da tristeza, da doença, das anomalias e da morte.O medo é o pai do Mito e este por sua vez surgiu desde tempos imemoráveis, da intenção positiva de acalentar o sofrimento e dar esperanças aos nossos semelhantes. O mito inicialmente deu significado para o que não conseguiamos explicar! Deles surgiram crenças, rituais e o conforto que tanto necessitavamos. É a mola propulsora da eterna busca pela imortalidade concretizada pelo avanço tecnológico. É a razão do delírio que culminou na “pretensa ilusão de se ter o controle”. 

A nossa “pretensa ilusão de se ter o controle” quando posta à prova, nos causa uma pane e nos leva diretamente para aquela caverna, em busca daquela fogueira onde havia uma luz tremelicante  que nos dava a sensação de segurança. 

Ora, os Mitos nunca se dissiparão por completo e a ciência nunca dará soluções para todas as questões que nos afligem! 

Vivemos numa Nave Azul que pulsa à deriva no espaço. Somos as únicas formas de vida auto-consciente até então descrita pela ciência. Parafraseando o renomado físico Marcelo Gleiser, “Por sermos raros e frágeis, por sermos o resultado de uma série de acidentes, somos ainda mais preciosos. Se não cuidarmos de nossas vidas, tudo indica que o universo também não cuidará”. 

Como lidarmos com nossas expectativas? Como evitarmos o sofrimento? Como encontrar a paz e o centramento que tanto precisamos? 

Asseguro que não há uma resposta que atenda a todos os anseios, como diz a máxima da Programação Neuro-Linguística “ o Mapa não é o território”, no entanto poderemos refletir sobre algumas ponderações: 

– Do ponto de vista científico, somos frutos de eventos caóticos cuja reprodução de suas sequências é probabilisticamente improvável, o que nos tornam raros e preciosos. 

– Do ponto de vista religioso, somos a obra divina do Pai, somos um milagre, a conexão entre o concreto e o etéreo. 

– Independente do Gestar e do Parir serem  complexos resultados do acaso ou de uma Obra Divina,  devem ser acolhidos como uma dádiva cujas particularidades e exclusividades merecem serem reverenciadas dentro do mais alto grau de respeito e admiração. 

– Agir segundo os propósitos da natureza com o mínimo de intervenção possível, tendo como testemunho toda provação sofrida pelos nossos ancestrais para que hoje estivéssemos aptos a gerar novos descendentes. Obviamente tirando proveito de todo recurso tecnológico disponível para que Mãe-Feto-Família compartilhem da mesma energia de êxtase, comunhão e reverência com toda segurança. 

– Devemos estar conscientes de que a vida não é propriedade de ninguém. É um estado transitório da matéria, cujo acolhimento e cultivo nos presenteia com seu desabrochar e florescer. Se materializa a partir de uma comum-união, inicialmente entre homem e mulher e posteriormente de maneira simbiótica entre Mãe e filho. Se eterniza no constante ciclo de sua renovação. 

–  Ser acolhido, crescer, equipar-se, desarmar-se, amar, receber, aceitar, comprometer-se, acolher e facilitar. O elo permite à corrente seguir sempre na mesma direção. O calor do afeto é que dissipa o medo e faz a vez das fogueiras em torno das quais nasceram os mitos. A razão abre clareiras, mostra os caminhos e desfaz os mitos, mas é fria e imparcial como uma lâmina. Ambos compõe o mesmo Sistema num eterno movimento de  expansão e retração sempre em busca do equilíbrio. 

A dor é inevitável. O sofrimento é uma escolha. 

Quando na eminência do nascimento de um novo Ser, mudamos o foco das nossas preocupações para o acolhimento respeitoso, dessa dádiva, desse luxo que é a vida, nos sobram motivos para ficarmos de joelho em reverência diante da grandiosidade que esse fato revela. Nesse momento nos é dado a oportunidade de experimentar em toda a sua plenitude a vivência do “Servir”. É nesse momento que nasce uma mãe e é a partir desse ato que a vida se eterniza. E nesse momento onde “Morte”(do velho, do ego, do medo…) e “Vida” se encontram, o equilíbrio é restaurado e surge um grandiloqüente silêncio dentro do qual a Paz Reina. 

  

Dr. Fábio Batistuta de Mesquita 

Médico Ginecologista e Obstetra 

Bom Despacho, 22 de Julho de 2010. 

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