Medo, dor e parto.


   

            Com o acesso à informação, sobretudo com a vulgarização dos sites de pesquisa como o Google, as pessoas e nesse caso especificamente as gestantes e seus familiares, tem se sufocado com tantas informações desconexas.

            Uma vez brinquei com a mãe de uma gestante adolescente, que naturalmente encontrava-se muito preocupada com o estado de saúde da filha. A menina vinha apresentando tonteiras, atraso menstrual, náuseas e vômitos e algumas alterações laboratoriais. A mãe me dissera que pesquisara no Google e que suspeitava estar sua filha sofrendo com um tumor de ovário ou de hipófise. Eu disse em tom irônico, já que a intimidade nesse caso permitia: – O problema da sua filha, lá na roça, num ambiente simples e desprovido de informação já teria sido diagnosticado! Seu sofrimento é fruto de muita informação, conhecimento limitado e quase nenhuma sabedoria…

            Estamos aos poucos perdendo nossa inocência e nossa capacidade de confiar. Nossa fé, não a fé dogmática, mas a espontaneidade de acreditar nos recursos que nos mantêm vivos e saudáveis, vem sendo substituída pelo medo.

            É sobre o medo que eu gostaria de escrever nesse momento. Para depois analisar a ação do mesmo sobre a percepção da dor e sua influência sobre o parto.

            O que é o medo? Qual o seu papel nas nossas vidas?

            Em síntese, a palavra MEDO foi convencionalmente criada para descrever um conjunto de sensações físicas no nosso corpo, associadas a um sentimento comum de vulnerabilidade. Esse sentimento comum surgia todas as vezes que sentíamos ameaçados. Por exemplo, diante do risco eminente de ser atacado por um Tigre Dente de Sabre, nosso ancestral sentia imediatamente uma sensação de frio congelante no estômago, seguido de palpitações no coração que faziam a pressão arterial subir e dilatar as veias do pescoço, a face ficava pálida, os lábios finos e brancos como cera, as pupilas dilatavam-se, os músculos de todo o dorso retesavam-se, os dentes naturalmente ficavam a mostra e os pelos se eriçavam. Tudo instantaneamente. Nesse momento a presa analisava em fração de segundos: Fugir ou atacar? Esse instinto, comum a todos os animais, é desencadeado por um conjunto de reações neuroendócrinas que nos conferiu a capacidade de autoproteção mais primitiva.

             Ufa! Ainda bem que somos assim! Se não fosse essa cascata de eventos não estaríamos lendo esse texto hoje.

            Alguns pesquisadores acreditam que há cerca de 30.000 anos, algum povo vindo da África, com uma estrutura linguística mais desenvolvida, passou a utilizar-se da conjunção “Se” (Conjunção subordinada condicional) que pode ser traduzida na formulação de novas hipóteses. Estranho não? Como uma palavrinha tão ordinária pôde mudar toda a forma do pensamento humano? Há quem diga que a partir desse momento o homem começou a se preocupar com o futuro e começou a agir no presente com olhos para o dia do amanhã (Obviamente que não de uma maneira tão simplista assim.).

            O que isso tem a ver com medo?

            A partir do momento que o homem passou a se preocupar com o futuro, nasceu o medo psicológico. Ou seja, a partir de uma hipótese, toda aquela cascata neuroendócrina desencadeada na eminência da morte volta a ocorrer como se o perigo fosse real. Aquela pessoa que de fato estivera frente a frente com o “tigre dente de sabre” é capaz de mobilizar todo o aparato bélico do organismo para proteger-se de inimigos imaginários. É por exemplo, o que acontece quando entramos num hospital e toda aquela lembrança de quando éramos crianças e fomos submetidos a um tratamento doloroso volta à tona. Sem sabermos exatamente o porquê, sentimo-nos vulneráveis e percebemos sensações físicas desagradáveis. 

            Esse é o mecanismo básico da principal doença da atualidade, o Estresse. O termo estresse é uma metáfora, brilhantemente importado da física, que descreve o ponto de ruptura de um objeto quando exposto a uma tensão contínua. No nosso organismo, trata-se do desequilíbrio gerado quando o mesmo é exposto às pressões do cotidiano (trabalho, cobranças, crises financeiras, violência urbana e crenças limitantes) de forma contínua e por um período prolongado.

            O que isso tem a ver com a dor e o parto?

            Sabemos então que o medo real é um importante instinto de sobrevivência. Mas e o medo imaginário? Esse talvez seja o maior vilão para a economia do organismo. Entende-se por economia, a relação de equilíbrio que de um lado tem-se a alocação de diversos recursos do organismo (energético, metabólico, imunológico, mecânico, circulatório) para reagir a um perigo eminente e de outro todas as outras funções homeostáticas (controle de temperatura, digestão, funcionamento das glândulas, reprodução, sono, etc.). O uso constante desse aparato bélico é responsável pela deterioração do equilíbrio de todas as outras funções do organismo. Gastando-se muita energia para lutar não sobra muito tempo para “Viver”.

            O medo imaginário pode materializar-se numa dor real. Ele mobiliza nosso cérebro e nossas células que trazem registrados lembranças, sensações e sentimentos armazenados durante toda a nossa existência. Principalmente das nossas experiências negativas vivenciadas ainda mesmo dentro do útero.

            As crenças limitantes, os mitos, a ignorância, o imediatismo, a falsa ideia de que as tecnologias substituem os processos naturais com segurança somados ao medo interferem contundentemente na dinâmica natural do trabalho de parto.

            O medo do parto, quando dissecado e analisado profundamente, transcende o simples medo da dor física. Muitas mulheres que nunca experimentaram essa sensação a descrevem como uma experiência demasiado desconfortante. A gravidez assim como o parto coloca em evidência a identidade de gênero da mulher, bem como a sexualidade, os genitais e todo o simbolismo que essa exposição representa para determinada sociedade. Na nossa especificamente, ela explicita muito cruamente um poder primitivo que vem sendo duramente suprimido pela cultura machista há milênios.

            É possível passar pela experiência do parto natural sem dor?

            Naturalmente não! No entanto, a percepção dessa dor, sofre importante modulação dependendo das motivações e crenças de quem vivencia integralmente todo o processo.

            É possível detectar alguns padrões de comportamentos associados a uma sensação prazerosa com o parto natural:

            – O parto pode ser prazeroso em mulheres que tiveram uma infância agradável, sem histórico de violência e naturalmente de bem com a vida.

            – Nas mulheres com autoestima elevadas e seguras da sua sexualidade.  Conscientes das suas potencialidades e confiantes nos mecanismos naturais que propiciam o nascimento.

            – Mulheres cujas gravidezes foram desejadas ou bem acolhidas intimamente.

            – Nas mulheres mais crédulas e que tem a habilidade de confiar nos seus assistentes. (Fé)

            – Nas idealistas, nas altruístas e nas espiritualmente maduras.

            – Naquelas mulheres que recebem o apoio da família, principalmente do parceiro.

            – Enfim, nas que assumem uma postura ativa e colocam-se como protagonistas do nascimento de seus filhos. Não abrem mão do seu papel de mãe, sobretudo o de fêmea.

 

Fábio Batistuta de Mesquita

Bom Despacho, 04 de Dezembro de 2010.  

           

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